As Luas da Gata Tata
Pode ser uma praia de águas turquesas peixes coloridos e luares românticos ou uma praia rochosa com altas escarpas, água cor de chumbo e céus rasgados pelos ventos e pelos raios..... Se vieres na positiva (triste/alegre) entra!
Pai
Quinta-feira, 25.08.05
E vão lá 30 anos!
Ao fim do dia cheguei da praia com a Mana R. o C. e as sobrinhas e elas estavam no jardim á nossa espera!
A Mana B. a tia M.H. e a mãe L. entram, elas falaram com a Mana à parte e depois as manas levaram-me para o quarto de cá de baixo!
A colcha de pano branco com galos de Barcelos que pareciam gritar conforme as manas falavam, eu ouvia e não queria ouvir, olhava pela janela os pinheiros não pareciam os mesmos de sempre, eram mais altos e o céu não se via, as minhas sobrinhas não faziam barulho e os cães não ladravam...
Em silêncio (não sei se chorei) fui ouvindo:
- Ficou doente...morreu...foi melhor...querida...vai tomar banho.... vamos, para Lisboa... tens de ser forte... queres que diga a mãe para ela vir da Roménia...
Não sei se respondi ou não sei que subi as escadas e fui ao meu quarto depois entrei na casa de banho de cima e entrei na banheira, não fechei a cortina e tomei duche em frente ao espelho, pela primeira vez comecei a chorar, as lágrimas caiam juntamente com a água do chuveiro e eu olhava para o espelho e via-me com os meus 15 anos tão jovens mas tão vividos e agora com um pedaço a menos o meu Pai!
Tentava recorda-lo mas era difícil vira-o dia 6 e fora só isso, durante quase todo o resto do ano tínhamos uma imensidão a separarmo-nos, continentes, África era tão longe!
A água escorria e levava-me as lágrimas, saí da banheira e vesti-me de azul, não ia vestir preto, não tão cedo, desci a escada de caracol feita em madeira e partimos em direcção a Lisboa!
Não me lembro da viagem nem como foi tudo muito bem, sei que vim com as manas e que comemos percebes a mana sabia o que eu e o Pai adorávamos percebes, do velório não me lembro bem, excepto que ele tinha calçados os sapatos que comprara comigo numa vez que viera a Portugal e que foram tão caros que ele me dissera na brincadeira:
- Popílas quando morrer, levo estes calçados!
Antes passamos na florista Romeira que na altura ainda era só uma pequenina loja, estava a fechar e tinha uma camioneta de caixa aberta cheia de vasos com rosas. Eu fui lá com o meu sobrinho mais velho pedir se ainda me vendia uma flor, ela conhecia-me, vivera na Av. EUA todos os meus 15 anos...
Mal educadamente ela disse que não, que estava fechada, nem depois do meu pranto e de lhe terem explicado, ela cedeu. O meu sobrinho, danado, saltou para cima da camioneta e partiu uma rosa de um dos vasos perante os gritos histéricos da mulher!
E assim o meu Pai partiu com uma rosa roubada, eu sei que ele teria achado uma certa graça aquela aventura!
Tudo isto para o quê?!
Só para lhe dizer que acho que chegou a altura de nos darmos descanso!
Não, não o fui ver ao Hospital pois não sabia que estava doente, mas acho que agora já sabe disso.
O que aconteceu com a sua neta fez-me ver determinadas coisas de outra forma e acho que chegou a altura de selarmos certas coisas. Ambos sabemos o que eu gostava de si e a falta que me tem feito, mas 30 anos é muito tempo para se viver de mágoas e recentimentos 30 anos é uma vida, neste caso quase metade da minha...
Sei o quanto ficou contente e orgulhoso quando nasci e também tenho a certeza que ficaria com a sua neta e bisneta, dignas sucessoras, principalmente a bisneta que me parece que se sentiria lindamente em África, no meio do mato com espingarda na mão...
Hoje ficamos por aqui, mas podemos sempre conversar e até começar a recordar tanta coisa boa da qual não me lembro mas que tenho a certeza que nos aconteceu!
Beijos sua filha Batatolina
Luar
Ps: Peço desculpa, mas esta é parte de uma carta que há muito tempo deveria ter escrito.
Ao fim do dia cheguei da praia com a Mana R. o C. e as sobrinhas e elas estavam no jardim á nossa espera!
A Mana B. a tia M.H. e a mãe L. entram, elas falaram com a Mana à parte e depois as manas levaram-me para o quarto de cá de baixo!
A colcha de pano branco com galos de Barcelos que pareciam gritar conforme as manas falavam, eu ouvia e não queria ouvir, olhava pela janela os pinheiros não pareciam os mesmos de sempre, eram mais altos e o céu não se via, as minhas sobrinhas não faziam barulho e os cães não ladravam...
Em silêncio (não sei se chorei) fui ouvindo:
- Ficou doente...morreu...foi melhor...querida...vai tomar banho.... vamos, para Lisboa... tens de ser forte... queres que diga a mãe para ela vir da Roménia...
Não sei se respondi ou não sei que subi as escadas e fui ao meu quarto depois entrei na casa de banho de cima e entrei na banheira, não fechei a cortina e tomei duche em frente ao espelho, pela primeira vez comecei a chorar, as lágrimas caiam juntamente com a água do chuveiro e eu olhava para o espelho e via-me com os meus 15 anos tão jovens mas tão vividos e agora com um pedaço a menos o meu Pai!
Tentava recorda-lo mas era difícil vira-o dia 6 e fora só isso, durante quase todo o resto do ano tínhamos uma imensidão a separarmo-nos, continentes, África era tão longe!
A água escorria e levava-me as lágrimas, saí da banheira e vesti-me de azul, não ia vestir preto, não tão cedo, desci a escada de caracol feita em madeira e partimos em direcção a Lisboa!
Não me lembro da viagem nem como foi tudo muito bem, sei que vim com as manas e que comemos percebes a mana sabia o que eu e o Pai adorávamos percebes, do velório não me lembro bem, excepto que ele tinha calçados os sapatos que comprara comigo numa vez que viera a Portugal e que foram tão caros que ele me dissera na brincadeira:
- Popílas quando morrer, levo estes calçados!
Antes passamos na florista Romeira que na altura ainda era só uma pequenina loja, estava a fechar e tinha uma camioneta de caixa aberta cheia de vasos com rosas. Eu fui lá com o meu sobrinho mais velho pedir se ainda me vendia uma flor, ela conhecia-me, vivera na Av. EUA todos os meus 15 anos...
Mal educadamente ela disse que não, que estava fechada, nem depois do meu pranto e de lhe terem explicado, ela cedeu. O meu sobrinho, danado, saltou para cima da camioneta e partiu uma rosa de um dos vasos perante os gritos histéricos da mulher!
E assim o meu Pai partiu com uma rosa roubada, eu sei que ele teria achado uma certa graça aquela aventura!
Tudo isto para o quê?!
Só para lhe dizer que acho que chegou a altura de nos darmos descanso!
Não, não o fui ver ao Hospital pois não sabia que estava doente, mas acho que agora já sabe disso.
O que aconteceu com a sua neta fez-me ver determinadas coisas de outra forma e acho que chegou a altura de selarmos certas coisas. Ambos sabemos o que eu gostava de si e a falta que me tem feito, mas 30 anos é muito tempo para se viver de mágoas e recentimentos 30 anos é uma vida, neste caso quase metade da minha...
Sei o quanto ficou contente e orgulhoso quando nasci e também tenho a certeza que ficaria com a sua neta e bisneta, dignas sucessoras, principalmente a bisneta que me parece que se sentiria lindamente em África, no meio do mato com espingarda na mão...
Hoje ficamos por aqui, mas podemos sempre conversar e até começar a recordar tanta coisa boa da qual não me lembro mas que tenho a certeza que nos aconteceu!
Beijos sua filha Batatolina
Luar
Ps: Peço desculpa, mas esta é parte de uma carta que há muito tempo deveria ter escrito.